Durante o dia eu trabalho os dois horários no faturamento de uma loja no centro da cidade. Após me formar rodei um bocado para conseguir um contrato e ingressar na minha carreira de formação, já que novos concursos estão previstos somente para 2009. Então, graças ao velho “Q.I.” consegui o contrato e hoje leciono à noite em 03 turmas do EJA (Educação de Jovens e Adultos). As turmas têm perfis diferenciados. Tem a turma dos já em idade avançada que frequentam a escola assiduamente apesar do cansaço diário relativo à família e trabalho mas que em termos de acompanhamento de conteúdo é uma turma muito lenta e que talvez mal acostumada pelos professores anteriores, vem encontrando muita dificuldade com a pressão que venho impondo para eles realmente raciocinarem, participarem da aula e estudarem ao invés de só obterem nota por alguns trabalhinhos esparsos. Tem a turma dos adolescentes que dão um trabalho danado com o comportamenteo típico dessa idade mas que assimilam o conteúdo com mais facilidade e são mais ativos. E por fim a terceira turma que fica num meio-termo, destacando-se mais pelo crescente número de faltas e evasão. Porém algo vem me irritando profundamente esses dias. Essa turma dos alunos em idade avançada cismou de reclamar da minha aula para a direção, batendo na tecla que eu ensino rápido (confesso que eu falo rápido, mas sempre repito bastante o que falo), exijo demais e que talvez precisem de um professor com mais experiência. Tudo isso porque eu prezo mais pela qualidade do que quantidade e me nego a dar pontos a torto e a direito. Eu realmente exijo bastante da turma que já não tem muita base matemática devido aos problemas de terem ficado muito tempo parados e não lembrarem do que já foi ensinado ou nunca terem aprendido, mas é aí que eu acredito na necessidade de maior empenho. A direção por enquanto está do meu lado e me apoiou, ignorando as reclamações quando eu expliquei o perfil da turma, mas como eu sei que é algo que talvez possa influenciar no ano que vem na renovação do meu contrato, ando tentando reavaliar o modo de dar aula para essa galera específica, já que as outras turmas estão indo bem, e não encontro. Já usei diversos métodos e continuo não agradando. Eles são muito folgados, reclamam de tudo e querem ganhar nota na mamata. O que impera nessa turma é a total preguiça e malandragem e isso me entristece. Tenho consciência da condição atual da educação e de como esse projeto (EJA) visa beneficiar esse alunado que apesar de retardatário tem força de vontade. Só que nem todos são destemidos e bem intencionados. Eles estão conscientes dos seus direitos e isso é bom, agora eles não podem imaginar que são soberanos e intocáveis por isso. Os alunos atuais sabem que a escola precisa de números para aumentar estatísticas e se apoiam nisso para bater de frente com os professores, o que é uma pena.
Na aula de ontem ao terminar de explicar o conteúdo, uma aluna me perguntou quantas aulas sobre aquele assunto eu já havia dado. Eu disse que era a primeira mas que tinha pesquisado muito sobre e perguntei o porquê. Ela apenas riu ironicamente e disse que não tinha entendido nada a aula inteira e que a turma toda iria tirar zero na prova. Então a aula tinha acabado (o sinal acabara de tocar para o intervalo) e eu disse que não só ela mas qualquer um que quisesse tirar alguma dúvida fosse me procurar na sala dos professores que eu explicaria novamente com todo prazer. Ela disse que não adiantava, já estava cansada de trabalhar o dia inteiro, de cuidar do filho e que não ia mais quebrar a cabeça com Matemática. Olha a desculpa da criatura! Então eu disse que todos temos problemas e que isso não era motivo para nos desestimularmos, que a Matemática era muito importante na vida de qualquer um, que sem estudo não somos nada e todo aquele blá blá bá de incentivo diário. A aluna simplesmente virou as costas e foi conversar com o colega de trás sem dar muita atenção para o que eu falava. Indo embora, antes de sair da sala a irritação tomou conta do meu ser e eu mandei: Sim mocinha*… sobre a nota fale por si própria, não pela sala toda. Tem muita gente que entendeu e provavelmente não tirará zero ou ao menos irá se esforçar o suficiente para ter algum desempenho positivo. A vida acontece para aqueles que fazem por onde e não apenas se lastimam ou esperam cair do céu.
Eu sei que foi uma frase de auto-ajuda barata e minha vontade era dizer algo bem menos politicamente correto.
Venho percebendo que eles estão querendo se aproveitar da minha condição de recém-formada, da condição de serem adultos e da importância de números positivos no quadro da educação atual, para conseguirem vantagens no processo de aprovação e talvez assim continuarem indo para a escola e apenas participarem das estatísticas. Sem a obrigação real da aprendizagem.
Salvo algumas exceções, a turma em sua maioria é composta de um alunado complicado, desinteressado e que paga de coitadinho. Mas a culpa como sempre, é do professor.
*quis ser gentil, na realidade ela tem idade para ser minha mãe.
Tags: educação